Novas Tendências em Jornalismo: audiência, algoritmos e muito pouco conteúdo

Vou aliar práxis profissional, experiências em sala de aula e intenções de pesquisa para tratar desse tema de tendências. A ideia desse texto é organizar um pouco os pensamentos das palavras-chave audiência, algoritmos e conteúdo para o debate que participarei no Congresso Distrital de Jornalismo no próximo sábado, 6.

Minha intenção é fazer uma avaliação do nosso modus operandi diante de qualquer tendência.

O começo do discurso é bem fácil. Defenso a qualidade do conteúdo a frente de tudo. Cada ferramenta deve ser uma aliada da construção de uma informação que agregue e não o contrário.

Por isso, tenho muito receio a modismos tecnológicos e números de audiência. Não sou extremista em excluí-los da nossa prática profissional, mas levo bem mais a sério nossa função social.

Pois bem, vamos lá.

Já deu tempo de percebermos o fascínio que o Pokémon GO está gerando em jovens e adultos e de sentirmos a overdose de Jogos Olímpicos em nossas timelines. Da mesma forma, imagino ser  consenso que há muito mais do mesmo em todos esses conteúdos veiculados.

Na última quarta-feira, ministrei aulas para duas turmas de Novas Mídias da graduação do Iesb. Como o tema eram dispositivos móveis e streaming, resolvi abrir o mapa do Facebook Live. Já acompanho e experimento streamings desde 2007 quando ajudei a idealizar e criar o Projeto Dissonante:faça-rádio-web-você-mesmo. Então, sem muita surpresa, resolvi assistir o que os brasileiros estavam transmitindo naquela hora.

Facebook Live Maps. Mapa com os Facebook Live ativos

Facebook Live Maps. Mapa com os Facebook Live ativos



Facebook Live e o mais do mesmo

Escolhi abrir o mapa de Facebook Live porque é legal usar a geolocalização (mesma tecnologia presente no Pokémon Go), para saber onde as pessoas estão fazendo um streaming. Enquanto jornalista, optei por focar a analisar primeiro no conteúdo antes mesmo de aspectos de linguagem, estética que impactam, mas nem sempre são decisivos.

Na turma de Novas Mídias de manhã, cliquei na região Norte em busca de variedade regional. Encontramos um Facebook Live com a descriçã Espaço Woman. Achei que era algum debate legal sobre o papel da mulher, inclusive em dias de celebração dos 10 anos da Lei Maria da Penha.

Para risinhos e “espanto” geral, vimos uma menina mostrando a outra saindo de toalha de algum quarto. Dava para deduzir que se tratava de algum tratamento estético. Confesso que achei um pouco constragedor transformá-las em um experimento social. Depois, cliquei nos Facebook Lives do litoral do país e vi um monte de gente dando bom dia e não dizendo para que veio.

Não estou aqui para fazer qualquer tipo de julgamento moral com as timelines alheias. Mas é um exemplo de como é comum continuarmos na mesma lógica mesmo com novas tendências tecnológicas. Eles estavam reproduzindo aspectos que venho observando há um tempão.

“Ah, mas eles não são jornalistas. Nas redações a coisa muda de figura”

Quem dera!

Várias redações, e não excluo a que trabalho, investem todo fôlego possível em usar o que está dando audiência. Não é a toa que o algoritmo, um dos termos mais famosos dos últimos tempos, condiciona que os vídeos ao vivo do Facebook pulem em nossas timelines.

É muito mais fácil ter 20 pessoas ao vivo em um Facebook Live espontâneo do que cliques em uma reportagem especial sobre os 10 Anos da Lei Maria da Penha.


Na aula da noite de Novas Mídias, encontrei muito mais Facebook Lives. Alguns deles estavam expondo jovens menores de idade e informações preciosas de sua residência ou intimidade. É o que acontece também no próprio Pokémon GO. E olha que os próprios nicknames dos jovens dão pistas. Já localizei virtualmente o Pedro316N ou o João912Sul.

Não tive tempo de uma busca aprofundada, mas só fui encontrar conteúdos originais, mais diferenciados fora do país. A gente viu um grupo de idianos em Londres fazendo uma apresentação musical, uma rádio no Oriente Médio mostrando os bastidores do programa e alguns debates políticos.

Para concluir, não sou contra Facebook Live ou Pokemon GO. Pelo contrário, adoro me apropriar dessas tendências, mas faço uma crítica coletiva que ainda estamos escolhendo fazer jornalismo pelos cliques e pelo que dá números fáceis.

Sem querer propor o oposto, sugiro realmente que passemos a planejar melhor o que queremos com o conteúdo para além das tendências e, ao colocar em prática, criar o costume de assistir os vários exemplos até para não acharmos que estamos inventando a roda.

Como provocação para o debate, pergunto quantos de nós aqui, online ou no Congresso de Jornalistas, já paramos para assistir e avaliar de verdade os Facebook Lives alheios?


Tecla SAP:

Streaming e Facebook

Tecnicamente, Streaming significa um fluxo contínuo de dados digitais compactados que podem ser de áudio ou de vídeo ou dos dois juntos. No fundo, é como se a gente consumisse a mídia do download na mesma media que ele está sendo baixado.

O streaming acontece em rádios e tvs web, no Spotify, Netflix e por aí vai. A gente pode comparar o streaming a um link ao vivo que usa a internet para mandar o sinal em vez de antenas de TV; e que usa uma webcam ou celular em vez de câmeras, cabos e caminhões de link.

Também vale dizer que o Facebook Live é o novo queridinho do Mark Zuckerberg pois Youtube Live, Periscope, Snapchat e tantos outras ferramentas que valorizam o tempo real estavam desbancando o interesse da sua plataforma de rede social.

A gente pode transmitir um vídeo via celular ou utilizando programas específicos no computador. Depois, esse vídeo ao vivo fica disponível para quem quiser ver.

Algoritmos?

Para quem ainda não se familiarizou com o termo algoritmo, basta pensar que ele se trata de uma receita com passos bem determinados que, se cumpridos, resolvem alguma questão. Exemplo: ele é usado no site de buscas do Google para criar uma lista dos melhores resultados de uma pesquisa. Ou então, é o responsável final por determinar que tipo de conteúdo deve aparecer ou não em nossas timelines.

Fim da tecla SAP.

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