O algoritmo é o meio, diria McLuhan


Vem cá, depois de muitas ausências neste blog, quero provocá-los um pouco. Sabiam que o célebre acadêmico canadense McLuhan teria dito, de alguma forma, que o “algoritmo é o meio”?

Não acreditam? Pois bem, usando seus próprios meios metafóricos e analógicos [de analogia, ok?), encontrei uma resposta dele que possui o mesmo efeito da afirmação acima.

Onde? Em entrevista  para a ABC TV da Austrália, em 27 de junho de 1977.

Na verdade, trata-se de uma livre associação que faço. Ele sequer usou o termo algoritmo, mas foi questionado sobre seus apontamentos de que o mundo estaria migrando para o mundo do software.

Na breve e ampla resposta, deu a entender que os efeitos de tais padrões são mais relevantes do que o tipo de produto isolado que se resulta.

(não quer dizer que o produto seja irrelevante. Deixemos tais celeumas intelectuais para os inteligentes).

Todos sabemos, ou estamos aprendendo juntos, que softwares são compostos de algoritmos e que algoritmos existem muito antes de qualquer software, tendo sua origem lá na Ásia Central com o matemático al-Khwārizmī.

Vou transcrever o trecho da entrevista que, graças à nova “Aldeia Global” que vivemos, foi transmitida pela TV e Rádio, gravada em fita e digitalizada para essa nova rede global e local. Primeiro, em inglês, depois, gentilmente legendada para o português pelo pesquisador Felipe Boff, que também a publicou no YouTube.

Assim, com o vídeo como prova, podem até me acusar de deturpações de sentido, mas não de blasfêmia.

Nesse trcho, uma jovem pesquisadora faz uma complexa pergunta a McLuhan sobre o cenário político-militar da década de 1980, período da Guerra Fria (Fria, Quente…ah, McLuhan era uma figura, com certeza).

A jovem chegou a ser repreendida pelo apresentador do programa por “estar desviando” o assunto. Mas ela manteve o tom e acusticamente reverberou sua indagação para o lado esquerdo do cérebro de McLuhan, que fervia de concentração.

A pesquisadora  o perguntou sobre “tecnologias sérias”:

pesquisadora-pergunta-a-mcluhan-sobre-tecnologias-serias

“Eu fique desapontada ao ver que o seminário do senhor McLuhan [que ocorreu na Austrália dias antes] não ter tratado mais a sério de temas tecnológicos, em particular, da energia nuclear.

Portanto, gostaria de perguntar-lhe se você concorda que a energia nuclear representa suicídio em massa, a última expressão do desejo de morte, ou, mais na sua terminologia, a última trincheira da luta de morte do complexo militar-industrial do Ocidente…?

[o mediador a interrompe e pede para se focar ao tema]

…e o senhor McLuhan diz que o mundo caminha para ser um mundo do software, com o domínio do hemisfério direito do cérebro. Mas, o outro lado parece ter uma mão forte, em termos de dinheiro grosso e controle da mídia, por isso estou curiosa para saber como ele acha que este lado [do dinheiro] vai perder?

E McLuhan respondeu usando o lado mais instintivo do cérebro:

mcluhan-responde-sobre-bombas-atomicas

“É um emaranhado de questões, mas o principal evento da mídia eletrônica é a perda da identidade privada. Homem de massa significa homem relacionado com todos os outros homens simultaneamente.

Esse mundo nuclear é uma espécie de abandono da identidade privada, de valores e objetivos privados.

‘Como isso se relaciona com as bombas atômicas?’,

Eu levaria mais tempo para desenvolver a resposta, mas essas formas [da perda da identidade?] têm uma lógica e uma dinâmica internas que podem ser rastreadas, que podem ter um padrão reconhecível.”


Análise sobre as entrelinhas

Minha capacidade maia letrada patina no inglês e ainda me pergunto sobre que “formas” exatamente ele quis dizer, mas com os insumos que tenho poderia fazer uma metáfora e apontar nas entrelinhas que, assim como as bombas atômicas, o software/programa pode ser desmembrado em níveis atômicos, chegando aos algoritmos que lidam, de fato, com os dados capturados de seus produtores, roubando-os a identidade.

Tal imersão nuclear pode possuir um efeito devastador tão grande quanto a explosão de uma bomba atômica.

Se não destrói na hora, atua analogamente à radiação: de forma invisível, por meio de Facebooks, Googles, Pokemon Go e outros, geram um tumor de proporções consideráveis.

Não há excesso de pessimismo no que digo;  vivemos sobre radiações eletromagnéticas, da solar à aquela gerada por nossos smartphones. E também se combate o câncer com radiações. Portanto, tudo depende da intensidade e sentidos.

Assim, enquanto buscamos meios eficazes de melhor compreender os efeitos dos algoritmos na informação, receio por consequências muito mais graves do que um singelo rompimento familiar após discussões eleitorais mediadas por comentários no Facebook.


Obs. 1: MCLuhan se tornou célebre por ter conteúdo e por saber fazer muito bem “SEO” dos mesmos. Isso explica muito sua preocupação com os meios.

Obs. 2:  MCLuhan não usava a estratégia do clickbait/caça-clique porque ele normalmente entregava algo depois do “clique” ou “insight”.

2 thoughts on “O algoritmo é o meio, diria McLuhan

  1. Pois é, Leyberson! Eu achei bem propostas a sua metáfora e a interpretação das “formas” citadas por McLuhan. De fato, a perda (ou captura/sequestro) da identidade privada por engenhosos softwares/algoritmos tem efeito tão devastador quanto às bombas atômicas: detonadas ou não, o que delas resulta é a massa homogênea.

    • O mais curioso disso tudo é que se, numa visão pós-moderna, não faria mais sentido falar em massas, esses engenhosos softwares mostram como a diversidade nunca foi o interesse por trás dos “donos” dos códigos.

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