Do jabá ao golpe: algoritmos querem ditar nossos gostos

Em vez de ser transparente com vocês, eu poderia começar este texto inventando mil mentiras por não ter entregue um post nesta terça-feira como prometido.

Bastava salvá-lo como público às 23h59 de ontem para dizer que cumpri o combinado. Poderia também dizer que acabou a energia no meu prédio exatamente no momento que escrevia.

Na verdade, até faltou luz, mas não justifica o atraso. Parte da culpa é da procrastinação. A outra é da falta de ritmo mesmo.

Ah, se os algoritmos fossem tão transparentes assim…

O que custa dar maior transparência aos algoritmos?

O que custa dar maior transparência aos algoritmos? Foto: Geralt / CC

Duas leituras recentes me fizeram reviver condutas de má-fé típicas do universo pré-internet.

  1. Jabá: propaganda oportunista de algum serviço ou conteúdo; ou aquele molhar de mãos para exibir sua música ou filme em determinada mídia;
  2. Golpe: manobra desleal que passa a perna em alguém. Termo mais citado tanto na negativa quanto na afirmativa dos últimos tempos eleitorais.

Comecemos pelo Spotify e Netflix. Não quero dizer, por favor, que há algum tipo de jabá nesses serviços de streaming. Porém, cito a matéria do El País “O gosto na era dos algoritmos” que coloca em cheque como o algoritmo utiliza nossa navegação para construir perfis de gostos musicais:

A questão, no entanto, é se os limites impostos na aprendizagem pelos sistemas fechados de computação são equiparáveis aos erros e possíveis idiotices que cometemos durante anos formando nosso próprio gosto.

O que a matéria quer dizer é que talvez eu tenha acostumado o Spotify a reproduzir samba após visitar a Lapa no Rio e me sentir o próprio boêmio. Só que tal fato não diminui o meu apreço por “Vou Rifar Meu Coração…” e “Pare de Tomar a Pílula…”, entre outras pérolas brasileiras.

Assim, o Spotify passou a entender que deveria viver me sugerindo Cartola, Noel Rosa, Adoriran Barbosa e dificilmente me mostrará como referência Zeca Pagodinho, o cara que faz do samba, pagode. E do pagode, samba. Não acredita nisso? Assista:

Pois bem, e o Jabá?

O fato é que esses dados de perfis musicais são uma fonte riquíssima para quem busca o lucro acima de tudo. E não sabemos a boa-fé de quem programou os algoritmos nada transparentes.

E se nos induzirem determinados gostos em detrimento de outros?

Para os ouvintes de determinadas rádios de MPB deve ser bem chato ouvir tanto Jorge Vercilo na programação diária. Você chega a perguntar se ele é dono da rádio ou pagou algum tipo de jabá para o locutor.

Não podemos afirmar nada nesse caso, mas sabemos muito bem que, na indústria musical, esse recurso obscuro do jabá funciona até hoje.

Reprodução de frame do filme Star Wars com o personagem Jabá

Não é desse Jabá que estamos falando, mas é tão escuso quanto.

No fundo, de tanto consumirmos samba, acabamos pegando o jeito da coisa e passamos a negar o “brega”. De tanta Lapa, acabamos esquecendo das batucadas humildes em Xerém, regadas a cerva barata.

Esse gosto que os algoritmos indica ser nosso pode, na verdade, nos limitar ao que já gostamos em determinado momento. E, assim, fechar as portas para a diversidade cultural.

Um golpe na transparência é o primeiro passo para o fim

A afirmação que faço no subtítulo pode ser utópica, mas representa uma constatação: o usuário não gosta de ser enganado. Quando estamos no Facebook e curtimos uma página é porque queremos vê-la em nossa timeline. Errado? E por que não funciona mais assim?

É sobre isso que discute Eden Wiedeman no texto “O Facebook decretou a própria morte“. Para Wiedeman, a cada mudança no algoritmo da plataforma, mais chance o Facebook tem de perder o seu prestígio.

Por falar em enganação, relato um caso pessoal que ocorreu em 2014. Nesses tempos de Copa do Mundo, o Facebook começou a me mostrar posts patrocinados da Renault, dizendo que minha esposa tinha curtido a página deles.

O fato é que a Renault seria a última marca que ela curtiria. A empresa francesa está totalmente fora de mão de nossas experiências e preferências automobilísticas.

Logo, conclui que se tratava de um post patrocinado falso.

Golpe na transparência. Mulher quebra vidro. Foto: Reprodução / CC

Não, esse não é um Renault e essa não é a minha esposa. Sim, golpe na transparência…o trocadilho foi péssimo, eu sei.

Entrei em contato com minha esposa para ter certeza que ela jamais teria seguido tal página. Para nossa surpresa, a página estava clicada como curtida em seu login.

É você Satanás? porque não foi ela, não, com certeza.

Por vários meses percebi que amigos de Facebook seguiam páginas estranhas até o ponto de constatar que eu também estava seguindo fanpages nunca antes acessadas.

Ligando os pontos, foi fácil inferir que o Facebook vendia X cliques a um anunciante que queria impulsionar os cliques da página e os algoritmos entregavam o número exigido a partir de cliques forçados.

Infelizmente, não tive elementos técnicos e tempo para fazer uma auditoria sobre o tem. E, com as mudanças nos algoritmos que diminuíram o alcance das fanpages, o assunto virou lenda urbana.

De qualquer forma, acho que vale perguntar se não estou sozinho nessa.

Já aconteceu com vocês de verem páginas sugeridas na timeline que foram supostamente curtidas por amigo que não tem o menor gosto por aquele assunto?

Se sim, relate em nossos comentários.

Até quinta-feira, se a luz não acabar antes ;).

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