As máquinas ainda não sabem contar histórias como nós

Peço licença para uma ingênua reflexão sobre o impacto das máquinas e dos algoritmos nas rotinas produtivas de quem lida com informação e como as narrativas podem acrescentar a esse mundo.

Antes, a quantidade era a receita. Quanto mais cliques conseguíamos, maior era o sucesso. Para se ter quantidade e justificar o emprego, era (e é) preciso produzir com pressa, o que nos leva a escolha do clique fácil.

Uma matéria sensacionalista, uma matéria com os números da Mega-Sena ou uma listas de coisas inusitadas sempre foram boas iscas. Mas essas escolhas impactam na qualidade do conteúdo. Impactam também na demanda de infraestrutura das máquinas que processam dados tão acessados.

E impactam na credibilidade das empresas. Como a pessoa que entra em tais conteúdos “fáceis” não dura dentro do site, a imagem que fica é que o culpado foi o Google por entregar um resultado ruim ou do Facebook, que exibiu um post oco.

Mas se engana quem acha que os donos das máquinas não entenderam que caça-clique impacta negativamente nos seus próprios serviços.

Por isso, seus desenvolvedores projetam algoritmos cada vez mais robustos para  equipamentos (banda, hardware etc)  e entregar  resultados mais úteis.

Logo, se a informação da matéria que você publicou puder ser mostrada  no site principal do Google após a busca, é claro que ele vai fazer isso.

Para que clicar em algo que você já conheceu lendo o título, não é mesmo?

Não é à toa que aparecem verbetes com significados de palavras pesquisadas no Google. Escreva “O que é algoritmo”.  Acha mesmo que o Google vai mostrar o link deste site ou de outro como primeiro resultado? Vai lá, teste!

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Exibir o resultado das loterias de cara é mole, mole. Basta puxar os números da Caixa Econômica Federal.  Afinal, a Caixa é pública e seus resultados também.  Quero ver o Google fazer isso com o Jogo do Bicho, isso sim.

Engajar por novas narrativas

O termo da moda (e que faz sentido) é ENGAJAMENTO. Ou seja, a capacidade de envolver a pessoa em algum post nas mídias sociais online, dentro de algum conteúdo…

Agora, como nós, comunicadores, podemos largar o osso do mais fácil para estimular o engajamento? Simples, como fazemos em vários momentos da história: contando ótimas histórias.

Ok, lá vem com o boêmio romântico que não compreende a máquina econômica por trás de tudo. Roda moinho, roda peão…

Posso até ser, mas folhetim só dá dinheiro até hoje por causa das histórias contadas. Ou acha mesmo que House Of Cards ou Game Of Thrones bomba por ter bomo pilar da sua trama a democratica política nossa de cada época?

As pessoas querem ouvir, ler, escutar, sentir boas histórias, tristes ou não, com ou sem final. Elas querem ler algo que seja relevante e que compense o “tempo perdido” com o clique inicial.

Só que contar história hoje não pode ser feito como no passado. Não vem reclamar…o jornalismo está imbuído, sim, em meio digital, assim como esteve com a imprensa de Gutenberg. Portanto, nós jornalistas precisamos aprender a contar histórias relevantes com uma linguagem adequada aos novos meios.

O que é bem diferente de querer amarrar um tablet com uma foto de melancia no pescoço e sair por aí fazendo Facebook Live, né…

Fazer o novo não é ser o primeiro a usar algo novo

Para fazermos grandes histórias em novas narrativas, contamos tanto com o apoio de recursos multimídia mais simples como vídeos, áudios e mapas quanto com as experimentações tecnológicas que permitem aos usuários participaram mais da história. Não é mesmo, “oooo, Thaís?!

E no meio digital, tudo ocorre muito rápido. Então, não adianta ficar seguindo modinhas. Surgiu Snapchat, faz conta. Surgiu Telegram, cria grupo de distribuição. Surgiu o Plag, posta qualquer coisa que viraliza. “ooo, Plag?!”

Qualquer coisa de qualquer jeito, não! É preciso ter o que colocar e utilizar da melhor forma as ferramentas que achar apropriado no momento. Ou vai me dizer que você não tem coragem de cancelar aquela conta super “útil” que você tem no Google Plus? Ah, vai ver se eu tô lá no Google Wave ;).

Em vez de seguir modinhas, estabeleça a sua forma de fazer notícias. Originalidade é algo que envolve muito mais do que o clique e que as máquinas AINDA não conseguem fazer. Afinal, elas traduzindo tão bem quanto intérpretes profissionais e conseguem descrever imagens. Duvida? Clique em cima dos links (quem me contou foram os algoritmos do Google Alertas).

♫ Todo mundo tem originalidade, só a máquina que não tem …♫

Escrever post com resultado de mega sena não te permite originalidade. Agora, criar uma matéria que explore as “entranhas” da Usina de Belo Monte e que coloque nas mãos do internauta o manche de um helicóptero virtual para escolher por onde olhar, isso sim é original, vai. (..por mais que games sejam coisas do tempo do futebol de botão com o seu avô…)

Óbvio que contar histórias NÃO É A ÚNICA missão da Comunicação e muito menos do jornalismo em meios digitais.

Nós precisamos fazer um arroz com feijão bem feito, continuar checando e entregando o factual (✓✓ – double check, por favor) sem perder tempo.

Mas contar histórias é o tempero que fideliza. Por isso, olhe em volta de sua cozinha, ou melhor, da sua estação de trabalho e se pergunte: quem está se aventurando em criar novas narrativas para as histórias que pipocam o mundo?

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